
Passava pouco das quatro da tarde quando o meu mundo, preso a uma maldita cadeira de rodas há cinco anos, virou completamente ao contrário no meio da rua. Bastou o toque de um miúdo sem-abrigo para desafiar todas as leis da medicina e mudar a minha vida para sempre.
O sol de outono batia nas ruas calcetadas do centro histórico, deixando tudo com um ar calmo, quase de postal. Eu tentava manter a dignidade com um vestido de cetim azul-celeste, mas por dentro carregava uma tristeza que me roía a alma desde o dia daquele terrível acidente.
Ao meu lado, o meu fiel Rottweiler controlava o ambiente, enquanto atrás de mim o Alexandre, o meu guarda-costas com cara de poucos amigos, garantia que ninguém se aproximava.
Mas toda aquela segurança ruiu num piscar de olhos.
Do nada, um miúdo descalço, com a roupa suja e rasgada, fintou o Alexandre e atirou-se na minha direção. Ele tinha um olhar fixo, quase hipnótico, que me gelou o sangue na altura.
Sem dizer uma única palavra, o rapaz caiu de joelhos e plantou as mãos ásperas diretamente nas minhas pernas.
— Não me toques! — gritei, em pânico, tentando puxar a cadeira para trás enquanto o medo me subia à boca.
A reação foi imediata. O Alexandre agarrou o miúdo pelo braço com uma força bruta, puxando-o para longe, enquanto o meu cão se atravessava na frente, soltando um ladrar ensurdecedor que sobressaltou quem passava.
O meu guarda-costas estava prestes a imobilizar o rapaz no chão, mas foi aí que algo muito estranho aconteceu.
Uma onda de calor inexplicável começou a subir pelos meus pés, espalhando-se pelas minhas pernas até ao peito. Não era dor; era uma energia tão intensa que me cortou a respiração.
— Para, Alexandre! Larga-o! — ordenei de repente, erguendo a mão. Até o cão se calou instantaneamente.
O que é que eu estava a sentir para reagir assim perante um perfeito desconhecido?
O rapaz, sem vacilar perante os modos do Alexandre, deu mais um passo em frente. Ajoelhou-se de novo e, com uma calma assustadora, voltou a colocar as mãos sobre os meus pés inertes.
Foi nesse milésimo de segundo que o impossível aconteceu à vista de todos.
Uma luz dourada e brilhante brotou das suas mãos pequenas, iluminando o meu vestido azul com reflexos quentes. O Alexandre ficou de boca aberta, com uma cara de choque absoluto.
Com o coração a mil à hora e as lágrimas a saltarem-me dos olhos, senti os meus músculos responderem. Apoiei os pés no chão, fiz força e, perante o olhar incrédulo da multidão, levantei-me.
Estava há meia década sem sentir nada da cintura para baixo, e de repente ali estava eu, firme, a aguentar o meu próprio peso em plena rua.
— Como… o que é que me fizeste? — perguntei, a tremer por todos os lados, segurando o miúdo pelos ombros enquanto tentava processar aquele milagre.
O rapaz nem pestanejou, como se curar alguém fosse a coisa mais normal do mundo. Olhou-me com uns olhos profundos, que pareciam guardar todos os segredos do universo.
Antes de se virar e desaparecer no meio da multidão, ele aproximou-se do meu ouvido e sussurrou uma frase que me deixou completamente paralisada:
— Daqui a pouco vais lembrar-te de quem eu sou.